Naquela calçada, havia sempre o mato crescendo, as plantas surgindo.
E um Seu Antônio sempre a cortar, aparar e cuidar de todo tipo de coisa que ali crescia.
Passei minha infância e adolescência vendo a rotina daquela calçada, que de tempo em tempos se enchia de verde, e logo depois era cuidadosamente aparada tornando-se de novo um singelo jardim.
Acostumei-me a cumprimentar Seu Antônio, sempre muito vermelho e suado a cortar os matinhos que teimavam em crescer mais rápido do que se esperava. Ele por sua vez, também se acostumou a me cumprimentar..desde quando minhas roupas eram basicamente um uniforme verde e branco do colégio.
Hoje eu caminhava na rua, quando passei numa calçada. Toda de cimento. E enquanto eu pisava, percebia que estava pisando no jardim do Seu Antônio. Aquele jardim que ele cuidava com tanto carinho e alegria desde que eu frequentava o jardim de infância. Jardim esse, que não importava o sol ou o frio que fizesse, lá estava ele, deixando-o impecável. Apesar de ser pequeno, o jardim dava trabalho suficiente para um dia inteiro, o que faria muitas pessoas simplesmente acabarem com ele, ou deixá-lo ao relento, crescendo desordenadamente.
Mas Seu Antônio gostava de cuidar do jardim.
E hoje não havia mais nada.
Seu Antônio morreu há mais de 1 ano... e apesar de tanto tempo ter se passado desde então... enquanto a calçada permanecia cheia de matinhos não cortados, cada vez mais altos pela falta de alguém que os cortasse, eu não me surpreendia tanto.
Mas pisar no jardim feito de cimento, me fez perceber, que tudo tinha ido embora.. Seu Antônio e o jardim.